Grande parte do perdão a mim mesma
Eu não acredito, essa é a frase que mais combina com meu tipo de personalidade. Em contrapartida existem pessoas que pagam promessas nas quais acreditam serem de obra divina. E eu diante disso não tenho palavras, apenas não acredito.
Não é somente em Deus, mas em quase tudo. Parece que vivo uma eterna farsa, olho as pessoas como numa dança, cada um em seu papel mas que em um determinado momento a música vai parar de tocar, a magia vai acabar e cada um ficará imóvel, esperando o próximo passo, falseado. Pois é preciso existir a música para dançar, eu só acreditaria se mesmo no silêncio houvesse a dança, incondicionalmente.
Talvez muitas vezes seja através da dor que eu acredite em algo. A dor da perda que me abateu semana passada, os dias de cemitério e a fase do hospital que antecedeu a morte da minha avó. Ali sozinha entre meus pensamentos de desespero e esperança, eu acreditei que ela poderia ser eterna. Que mesmo sobrevivendo ligada à máquinas, era a minha avó, aquela que cuidou de mim. Eu perdi algo em que acreditava.
Não sei se me faço entender, mas acho que no momento estou nos livros de Camus. Sou a estrangeira. É a palavra que mais casa comigo. Tenho total indiferença pelo mundo em que vivo, sinto uma inadaptação, uma vontade de fugir.
Eis que surge em meu tumultuado caminho uma contradição. Será pela dor novamente que obterei a resposta? No início achei que sim, achei que seria uma terrível tormenta em que por mais que eu tentasse me segurar da ventania, ela iria me levar. Agora já não sei mais. E isso me assusta mais ainda.
Imersa em vários tipos de sentimentos eu tento fluir. Mas isso sempre me pareceu impossível. Não sou do tipo que passa suavemente pela vida. E de certa forma eu sinto orgulho disso. Então eu acredito na maneira em que observo o mundo. Pode ser um tanto estranho, mas o fato de eu sempre estar em fuga é devido a eu acreditar em uma parte da vida em que muitos não enxergam.
Não tenho saído pelas noitadas cariocas. O motivo também seria não acreditar. Não acredito na felicidade dos bares. Não consigo me sentir bem. A música da boates me deixam entediada, o clima chamado de descontraído me deixa contraída e achando todo mundo do local idiota. Sou uma estrangeira, procuro meu país, minha casa.
Minha avó levou parte de algo em que acreditava. O amor dela por mim era incondicional, mas também acho que grande parte dele não existiria se não tivéssemos laços familiares. Eu serei amada por alguém sem ligação sanguínea comigo? Eu gosto de mim? Gosto do que vejo dentro de mim? É possível apagar as mágoas passadas, pedi desculpas aos mortos? Vovó levou grande parte do meu perdão a mim mesma.
E agora o que faço com essa nova brisa? Essa pequena ventania que rompe com minhas defesas mas não as tira? O que faço com você?
Eu gostaria de acreditar em mim. Mas não sei qual é meu papel nesse mundo. Só não quero ser igual, quero ser um pouco mais original. Talvez não queira me adaptar tanto, talvez fugir de vez em quando seja saudável. Talvez a única verdade existente nisso tudo é o não fazer sentido, não concordar. O que eu busco com isso? Porque tanta rebeldia? Será que valeu à pena ? Não sei, não sei, não sei… Não sei se também acredito nisso.
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